"Tenho uma tendência romântica a imaginar coisas."
**Rubem Braga**



quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Quem me compra um jardim com flores?
Borboletas de muitas cores, lavadeiras e passarinhos,
ovos verdes e azuis nos ninhos?
Quem me compra este caracol?
Quem me compra um raio de sol?
Um lagarto entre o muro e a hera,
uma estátua da Primavera?
Quem me compra este formigueiro?
E este sapo, que é jardineiro?
E a cigarra e a sua canção?
E o grilinho dentro do chão?
(Este é o meu leilão.)
**Cecília Meireles**

Que importa se a distância estende entre
nós léguas e léguas
Que importa se existe entre nós muitas montanhas?
O mesmo céu nos cobre
E a mesma terra liga nossos pés.
No céu e na terra é tua carne que palpita
Em tudo eu sinto o teu olhar se desdobrando
Na carícia violenta do teu beijo.
Que importa a distância e que importa a montanha
Se tu és a extensão da carne
Sempre presente?
**Carlos Drummond de Andrade**
Sou de outras coisas
pertenço ao tempo que há de vir sem ser futuro
e sou amante da profunda liberdade
sou parte inteira de uma vida vagabunda
sou evadido da tristeza e da ansiedade
Sou doutras coisas
fiz o meu barco com guitarras e com folhas
e com o vento fiz a vela que me leva
sou pescador de coisas belas, de emoções
sou a maré que sempre sobe e não sossega
Sou das pessoas que me querem e que eu amo
vivo com elas por saber quanto lhes quero
a minha casa é uma ilha é uma pedra
que me entregaram num abraço tão sincero
Sou doutras coisas
sou de pensar que a grandeza está no homem
porque é o homem o mais lindo continente
tanto me faz que a terra seja longa ou curta
tranco-me aqui por ser humano e por ser gente
Sou doutras coisas
sou de entender a dor alheia que é a minha
sou de quem parte com a mágoa de quem fica
mas também sou de querer sonhar o novo dia.
**Fernando Tordo**


"Mas resolvi não falar hoje em saudade,
nem dar a entender “saudade” por carinhos...
Senão me derramaria demais
e perderia o equilíbrio que é tão necessário
pelo menos para se dormir de noite."
**Clarice Lispector**
"Cada pedaço de mim
sabe o inferno que é ser sol em noites de chuva,
ser cor nos cinzas dos edifícios,
ser luz na escuridão das manhãs.
Cada todo de ti
sabe a delícia que é ser flor nas asas do vento,
ser cristal nos olhos das fadas,
ser azul no fundo do mar.
Cada suspiro de nós
sabe a angústia que é ser só um na multidão dos dias,
ser muito na pobreza da esquina,
ser ninguém na roda da vida.
Enquanto isso os relógios se vão,
e vêem aqueles que sabem
o que é apenas ser na ausência do nada".
**Clarice Lispector**
"Eu sou nostálgica demais,
pareço ter perdido uma coisa
não se sabe onde e quando”
**Clarice Lispector**
"Um dia desses,
eu separo um tempinho
e ponho em dia
todos os choros
que eu não tenho tido tempo de chorar”.
**Carlos Drummond de Andrade**

domingo, 23 de novembro de 2008

Havia, ontem à noite, tanta estrela
A tremer, a luzir n’água do lago,
Que eu pensei que era o céu
Que, por artes de algum mago,
Tinha descido à terra, de repente!
Parei-me junto ao lago, contemplando
E as estrelas, uma a uma,
Como espuma,
À flor d’água tremiam, refulgiam
Mas pouco a pouco foram reduzindo
O seu brilho,
E desapareceram
Olhei o céu: Lá estavam todas elas
A tremer, a brilhar!
Por certo riam
Da minha ingênua confusão
Que importa!
As estrelas do céu também se apagam.
Poeta:
Terra e céu cabem juntos
Dentro do mesmo sonho e da mesma ilusão
**Emilio Kemp**
Hoje
não choveu estrelas
nem
pétalas de prosa,
hoje
fez-se brisa
onde era brasa
e restou
uma poesia rasa,
hoje
eu esqueci as asas
(...) em casa.
**Múcio Góes**

Será liberdade
aquele vôo de águia
de uma simples folha seca?
Que poder tenho eu
sobre o dom da liberdade
de uma simplesborboleta?
Liberdade é assim:
sai o perfume da flor
mas a flor não sai de mim....
**Afonso Estebanez**

Só tu sabes os segredos
mais íntimos de mim
e conheces os medos,
mistérios e enredos
que do princípio ao fim
me percorrem os dias..
Mas também as alegrias
que partilho contigo
todas, uma por uma,
sem que subsista o perigo
de te esconder alguma..
Só tu sabes como sou,
embora imperfeito,
alguém que se moldou
à curva do teu peito..
**Torquato da Luz**

sexta-feira, 21 de novembro de 2008



Tenho ideias a cerca de ti
que me levam a perder os sentidos
e me conduzem a outro mundo
aonde todos os meus medos se dissipam
e tranformam meus vendavais
em mansa brisa
fujo da realidade para encontrar em você
porto seguro para pousar os meus sonhos
**Ana Paula Abreu**

terça-feira, 11 de novembro de 2008


Então,
me dei conta de que as palavras
ficaram perdidas em um tempo de sonhos
Que todos os nossos esforços foram em vão
e que toda loucura insana
deixou uma profunda marca
As lembranças me trazem de volta você
mas so tenho a sua ausencia
e a dor de não saber
do amanhã
Sigo sem saber aonde vou chegar
na esperança de que você
me encontre pelo caminho
você, você...
**Ana Paula Abreu**

domingo, 9 de novembro de 2008


Penso que devo ter adormecido por algum tempo;
Pois quando acordei tinhas vindo e partido.
Apenas algumas flores permaneciam
Flores que não podiam sequer dizer quem eram…
E uma fragrância vaga e suave no ar.
Esta noite tenho de sonhar um sonho mais longo
Para que as flores falem
E a sua fragrância estenda
uma trémula ponte entre nós.
**Rege**
Trad. Cecília Rego Pinheiro


Se todo o ser
ao vento abandonamos
E sem medo, nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar,
é porque estamos nus
em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar,
refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor prometido
nas formas que perdemos.
**Sophia de Mello Breyner Andresen**

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

No Desequilíbrio dos Mares


No desequilíbrio dos mares,
as proas giram sozinhas…
Numa das naves que afundaram
é que certamente tu vinhas.
Eu te esperei todos os séculos
sem desespero e sem desgosto,
e morri de infinitas mortes
guardando sempre o mesmo rosto
Quando as ondas te carregaram
meu olhos, entre águas e areias,
cegaram como os das estátuas,
a tudo quanto existe alheias.
Minhas mãos pararam sobre o ar
e endureceram junto ao vento,
e perderam a cor que tinham
e a lembrança do movimento.
E o sorriso que eu te levava
desprendeu-se e caiu de mim:
e só talvez ele ainda viva
dentro destas águas sem fim.
**Cecília Meireles**

4º Motivo da Rosa


Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá,
só de cinzas franzida,mortas,
intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me
é que vão me lembrando,
por desfolhar-me
é que não tenho fim.
**Cecília Meireles**

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Contraste

Vou pela rua,
solitário, miserável em minha tristeza,
como um vagabundo friorento e sem dormida...
Tinha vontade que me encontrasse,
para te dizer:afinal, sem ti,
eis o que resta da minha vida,
eis de mim tudo que resta...
E a noite segue ao meu lado,
feliz, indiferente
como uma adolescente de vestido de baile
a caminho da festa...
**J.G.de Araujo Jorge**


Acalanto

Vai amado.
Busca por onde quiseres,
com quem quiseres,
como quiseres,
o prazer.
Até mesmo,aquele prazer
que um dia alguém apelidou de amor.
E,se por acaso te cansares e,
do compromisso que um dia nos uniu te lembrares,
se desejares, volta.
Serei a que conforta.
Não saberás da dor,
da saudade,
das lágrimas sentidas
que tua ausência causou.
**Ada Ciocci**

Tu que nunca serás


Sábado foi caprichoso o beijo dado,
Capricho de varão, audaz e fino
Mas foi doce o capricho masculino
A este meu coração, lobinho alado.
Não é que creia, não creio,
Se inclinado sobre minhas mãos te senti divino
E me embriaguei,
Compreendo que este vinho não é para mim,
Mas jogo e roda o dado...
Eu sou a mulher que vive alerta,
Tu o tremendo varão que se desperta
E é uma torrente que se desvanece no rio
E mais se encrespa enquanto corre e poda.
Ah, resisto, mas me tens toda,
Tu, que nunca serás de todo meu.
**Alfonsina Storni**

domingo, 2 de novembro de 2008


Sinto que preciso correr o mundo
vencer barreiras,
subir aos céus
percorrer montanhas
soltar a voz
escancarar o peito
entregar o coração
perder o medo
esquecer a razão
soltar as amarras
silenciar a dor
me perder e me achar...
preciso...
mas hoje não...
hoje quero apenas ficar deitada
imaginando que estou perdida em teus braços.
**Ana Paula Abreu**
Hoje venci uma barreira que eu julgava ser impossível.
Consegui expressar em palavras sentimentos enclausurados aqui dentro...e sem a mínima pretensão de achar que é algo belo...é apenas o que estou sentindo hoje.
Talvez o peso se torne menor assim...por que deixar tudo guardado na alma, impede que o coração bata forte por novas descobertas.

Há um nó
apertado na garganta
uma vontade de voar alto
ate onde as asas alcancem
e eu encontre
um repouso feliz
nos teus braços
Mas hoje
tudo são duvidas
...se eu ao menos
tivesse suas mãos para me segurar...
**Ana Paula Abreu**


Hoje acordei
com ares de dia chuvoso
sem saber se me escondo
ou saio na chuva
...mas sem você aqui
não tenho vontade de me molhar

Hoje amanheci
cercada por interrogações
sufocada pela ausencia de respostas
presa num
interrogatorio sem fim
com duvidas
saindo pelos poros
e sem saber ao certo
o que pensar
**Ana Paula Abreu**


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